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A luz do Natal

Quinta-feira, 24.12.15

Este ano o Natal encheu a casa, iluminou-a. Tal como antes, há muitos anos. Passou de uma marcação no calendário, festa de família, para abranger todos os que cabem lá. Lá = o espaço dos afectos, que é infinito.

É assim que este Natal chegou... com as famílias de refugiados de uma guerra. Crianças sem pais também vieram. E muitos jovens com a esperança de encontrar um lugar neste lado de cá.

 

O menino nasceu, como nasce todos os anos. Vemo-lo sorrir de braços abertos. É a imagem mais surpreendente num mundo que se fechou sobre si próprio. Fronteiras geográficas e muros.

Alguns países acolheram as famílias que chegam. Que a luz do Natal continue a iluminá-los.

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:23

Volto a esse rio neste Natal...

Sábado, 15.12.12

 

A minha aventura blogosférica iniciou-se a navegar num rio sem regresso. O cinema como metáfora da vida. Porque o importante é a vida, o importante são as pessoas.

 

Nesta época do Natal, que sempre senti como a época dos afectos, vou dedicar-me nesse rio aos valores humanos fundamentais. Os valores humanos combinam muito bem com o Natal, a época em que nos reencontramos com a nossa própria infância, mesmo que através dos filhos, sobrinhos, netos.

 

Comecei com a liberdade, aqui ligada à justiça e à verdade mas, de certo modo, todos os valores humanos têm origem numa mesma base: o amor, a fraternidade, a empatia. Vermos no outro um outro eu, colocarmo-nos no seu lugar, vermos a sua perspectiva, sentirmos a sua aflição como nossa. 

É verdade que nem todos têm esta capacidade. É próprio dos psicopatas, por exemplo, não sentirem culpabilidade pelo mal que infligem a outros. É a linguagem do poder.

 

Aqui vai hoje este filme, Mr. Smith Goes to Washington, que coloquei pela segunda vez a navegar neste rio.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:12

Os Scrooge & os Bailey modernos

Terça-feira, 28.12.10

 

Um dos meus contos de Natal preferidos é precisamente A Christmas Carol do Dickens, aquele Scrooge e os espíritos que lhe vão aparecendo na noite. É um conto inspirado, que nos mostra a possibilidade de uma segunda oportunidade. E Scrooge aproveitou-a, o que é um verdadeiro milagre.

Não posso deixar de encontrar semelhanças com o filme de Capra, It's a Wonderful Life. Nele, o herói também tem uma segunda oportunidade, com a ajuda de um anjo que lhe irá mostrar como seria o mundo se ele não existisse.

 

No essencial, o que mudou nestas duas personagens? Exacto. A sua visão do mundo e da sua própria vida. O que mudou foi a sua perspectiva. Não há melhor símbolo para o Natal do que esta segunda oportunidade e esta mudança de visão essencial.

 

Quantos Scrooge e quantos Bailey modernos não terão também mudado a sua visão do mundo e da sua vida, neste percurso tantas vezes difícil e tortuoso? Agrada-me pensar que neste momento muitos deles aproveitam essa segunda oportunidade sem hesitar.

 

Um Natal abençoado e um Ano Novo inspirado é o que desejo aos Viajantes que por aqui passarem. (Eu sei, eu sei, já vai com alguns dias de atraso, mas até ao Dia de Reis é Natal, não é? E o Ano Novo ainda não amanheceu...)

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:23

Do Tempo das Descobertas: Do espírito da quadra

Domingo, 27.12.09

 

Do Vontade Indómita, este surpreendente texto Do Espírito da quadra. Uma perspectiva absolutamente genial que nos coloca no essencial da nossa humanidade:

 

" do espírito da quadra

 

  


 

Mesmo tendo sido educado na religião católica —que por tradição familiar e aulas de catequese (uff) me levou até à Comunhão Solene— nunca fui verdadeiramente crente do Acto e do Mito. O meu entendimento da matéria tem-se desenvolvido com os anos e poderá classificar-se como um evolutivo agnosticismo cínico. Acreditar superficialmente que o homem um dia terá a capacidade (embora no fundo pense o oposto) de resolver mistérios divinos que conscientemente acho que não existem, (não obstante sentimentalmente prefira estar enganado). É desta forma que olho para o 'Dr. Jivago' de Pasternak. Há algo de messiânico nele, coisa que com alguma força de vontade também conseguimos encontrar no burro 'Balthazar' de Bresson. Lutou contra as misérias e as dores dos outros com altruísmo e enfrentou o pior da natureza humana —aquilo que só a guerra provoca— com coragem. A fome despoletou a Revolução e esta o saque e a pilhagem. Por sua vez, tudo junto provocou o êxodo do nosso bom doutor e poeta. Mostrou-se sempre sensível e terno, para com os seus e perante os demais. A sua mensagem não é declaradamente pela Palavra, como num profeta bíblico para uma audiência atenta, nem mesmo pela Poesia para uma legião de seguidores. É antes pelo exemplo de estoicismo. Não sei, (nem me interessa), se Pasternak (nascido judeu) foi um fervoroso crente em qualquer religião. Acreditou, isso sim, nos homens. Tanto nas suas virtudes como nas suas desgraças. Jivago aparece remotamente à minha imagem subconsciente como o seu Cristo. Talvez por isto, o épico de David Lean (après Pasternak) é dos melhores filmes para o aborrecido espírito de compaixão da quadra. Pelo menos para alguém como eu. "

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:03

Do Tempo das Descobertas: Do Céu Caiu Uma Estrela - um filme intemporal

Quarta-feira, 23.12.09

 

Só hoje descobri este post de Jorge Assunção no Delito de Opinião. Como foi possível? Sou uma leitora fiel e deixei escapar parte dos posts na tag cinema! Aqui vai: 

 

 

 

 

 

" DO CÉU CAIU UMA ESTRELA: UM FILME INTEMPORAL

 

 A segunda guerra mundial acabara no ano anterior, Frank Capra, que tinha passado os últimos anos a filmar quase em regime exclusivo filmes sobre a guerra, não encontrava grande apoio da indústria americana para a rodagem dos seus novos projectos e James Stewart, tendo participado na guerra como elemento da força aérea norte-americana, estava há mais de cinco anos sem participar num filme. Capra acabou por criar uma produtora sua para a rodagem do filme e Stewart, inicialmente relutante, acabou por aceitar retomar a sua carreira neste Do céu caiu uma estrela. O filme ainda foi nomeado para os óscares, mas não ganhou nenhum. A produtora de Capra foi à falência e Stewart interrogou-se sobre se o seu talento de actor havia desaparecido com a guerra. Contudo, este foi só mais um filme que não teve o reconhecimento merecido no imediato, mas cujo teste do tempo tratou de elevar à condição de obra-prima do cinema internacional. Enquanto referência, transversal a todas as gerações americanas que se lhe seguiram, transformou-se em presença obrigatória nas transmissões televisivas em período natalício.

O filme é hoje considerado pelo American Film Institute um dos 100 melhores de todos os tempos e na listagem do mesmo instituto para o filme mais inspirador de sempre, surge no destacadíssimo primeiro lugar. Reconheço a minha alergia a listas do género, mas no caso em questão a minha opinião pessoal coincide. Além do mais, este fazia parte do famoso pacote de 25 filmes que Barack Obama decidiu oferecer a Gordon Brown.

 

O filme é intemporal porque lida com temas recorrentes no ser humano: os sonhos, a amizade, o amor, a esperança. Traça uma linha clara entre o bem e o mal que perpassa o coração humano. É também um filme sobre o nosso crescimento pessoal, sobre o percurso e as escolhas que fazemos na vida e como estas influenciam aquilo em que nos tornamos. Mais do que isso, como aquilo que fazemos influencia a vida dos outros para o bem ou para o mal. Há quem diga que é excessivamente moralista, eu acho que sendo certo que Capra reproduz um modelo simplificado da realidade, exagera na caricatura, com isso também reforça a conclusão final. George Bailey (James Stewart) pode não existir na vida real, mas enquanto símbolo representa aquilo a que cada um de nós devia almejar. No banqueiro Henry Potter (Lionel Barrymore, na figura à direita) encontramos o némesis da personagem de Stewart. O banqueiro sem ética, nem moral (vêem como é apropriado aos tempos que correm), cuja única preocupação é servir-se da comunidade em proveito próprio.

 

George Bailey era um homem com sonhos, cujos acontecimentos da vida trataram de desfazer. A dada altura a desilusão é tão grande que ele pensa em "abdicar da maior dádiva de Deus". Mas, por intervenção divina, um "anjo de segunda classe" é enviado em seu auxilio, um anjo que lhe dará a "oportunidade de ver como o mundo seria sem" ele. Bailey depressa descobre que aquela cidade de onde sempre sonhou sair transformara-se num pesadelo. A Bedford Falls que ajudara a criar era agora Pottersville (em honra do banqueiro sem ética, nem moral); os membros da comunidade dos quais Bailey havia conseguido extrair o melhor que tinham para dar, eram amostras medíocres em relação à outra existência, como que com os defeitos maximizados e as virtudes escondidas; pior que tudo, Bailey encontra-se com a sua amada Mary (Donna Reed), aquela que em criança havia prometido amá-lo até ao dia em que morresse, e, não fosse o amor de ambos coisa do destino, esta era uma solteirona bibliotecária, uma sombra daquela a quem Bailey havia prometido entregar a lua caso fosse seu desejo. Afinal, George Bailey finalmente percebe, não era o sonho de criança que realizara, mas nem por isso deixava de viver uma vida de sonho.

Já vi o filme algumas vezes e em todas elas não consigo deixar de me emocionar na cena final. Nesta, Harry Bailey (Todd Karns), o irmão que regressava da segunda guerra mundial como herói, brinda "ao homem mais rico da cidade!". Não é a dinheiro que se refere, mas àquele tipo de riqueza que o dinheiro não pode comprar. Um filme para os tempos que correm, para todo o sempre. "

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 21:53

O Menino

Terça-feira, 22.12.09

 

Vi-me inesperadamente na posição de defesa do estandarte do Menino. O Menino em fundo vermelho. O Menino a olhar para nós.

Podem dizer-me que "é uma forma de comércio", que "não precisamos que nos lembrem". A questão não está sequer aí.

 

O Natal será sempre o do Menino. Sempre. Foi assim que o vi primeiro, num pequeno suporte com palhinhas. Entre a mãe e o pai, e os animais do curral. E foi assim que o vi depois num pequenino estábulo de madeira, que o meu pai fez com ferramentas que tinha na cave. Cá fora, os Reis Magos com os presentes, os pastores, as ovelhas. Houve anos em que se montaram rochedos e caminhos com papel pardo pintado e musgo fresco. A árvore não destoava porque as árvores nunca destoam.

 

As nossas primeiras impressões são as que ficam. Uma estrela no céu a indicar o caminho, alguém que a segue sem hesitar. Não existe história mais simples nem mais complexa. A esperança é sempre a mais difícil de viver. E o Natal simboliza a esperança ainda viva em nós, uma chama que ainda não morreu. A sensibilidade para ver o milagre da vida, por exemplo. Para captar esse milagre e tudo o que significa.

 

Essa é que é verdadeiramente a dádiva do Natal, a alegria que nos envolve estranhamente, subitamente. Mesmo em fases mais tristes e solitárias, essa alegria vem sempre surpreender-nos, sempre. É isso que o Menino nos traz, a alegria de todos os inícios, é isso que nos mostra no presépio ou no estandarte em fundo vermelho.

 

Se o Natal se transformou em mais uma época de consumo? Na sua distracção, as pessoas inventariam outras formas de se alienar do essencial, de fugir de si próprias e da sua verdade. Umas, porque querem adormecer no cansaço das correrias de uma vida que não as satisfaz, outras porque já não sabem viver sem corresponder a expectativas exteriores, outras porque o movimento as leva a esquecer que estão sozinhas no final do dia.

 

E é precisamente aí que as pessoas se desviam do essencial: para perceber o momento mágico do milagre da vida é preciso estar sozinho, quieto por uns segundos, no absoluto silêncio, para ouvir o riso do Menino. É nessa cumplicidade que está o fio da nossa história toda, nesse riso do Menino, no nosso próprio riso.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:56

"A Canção de Natal" de Charles Dickens é muito actual

Quinta-feira, 10.12.09

 

Pensava eu que as gerações melhoravam naturalmente da anterior para a seguinte, que partiam de valores dos avós e dos pais e elevavam ainda mais a consciência.

Descubro agora, com total perplexidade, que não é assim. Uma geração inteligente e empreendedora pode produzir uma geração mesquinha e medíocre. Mesquinhez e mediocridade que estão geralmente relacionadas com a ganância e a falta de escrúpulos.

 

Também a inteligência pode decrescer de geração para geração, foi também isso que descobri recentemente e com total perplexidade.

Às vezes pergunto-me se essas gerações que nos precederam se orgulhariam dos seus descendentes e, se os pudessem ver, o que lhes diriam. É um exercício muito esclarecedor.  Mas talvez a vida seja generosa nessa impossibilidade muito prática: poupar essas gerações à visão aterradora da sua descendência.

 

Estas recentes descobertas levaram-me até Charles Dickens e A Canção de Natal. Charles Dickens é um autor que volta a estar tristemente actual. Scrooge apenas tem olhos de avaliador e de oportunista, perdeu a alma em qualquer sítio e a alegria também.

Na cabeça deve ter apenas duas colunas de números, em que o haver deve suplantar em muito, muitíssimo, o dever, em que não há lugar para a bondade genuína, os afectos genuínos.

 

N' A Canção de Natal Scrooge tem uma última oportunidade, anunciada pelo fantasma do seu sócio: três Espíritos irão suceder-se noite após noite até à noite de Natal.

O primeiro é o Espírito do Natal do Passado. Anos em que Scrooge escolheu ser a pessoa que é agora, perdendo com essa escolha o amor da sua vida.

O segundo é o Espírito do Natal Presente. Scrooge percebe que o amor, a alegria e a gratidão enchem a casa pobre do seu empregado, que ele tão maltrata, comovendo-se com a bengala na cadeira do pequeno Tiny Tim.

O terceiro é o Espírito do Natal Futuro. Scrooge vê o seu próprio velório e o saque a que a casa fica exposta. Mas o pior é o pequeno aleijado, o Tiny Tim, que não resistirá a esse Natal.

 

Scrooge tem esta última oportunidade, de acordar e de se libertar das suas próprias limitações. Muda da noite para o dia, literalmente.

Será um novo Scrooge a festejar o Natal.

 

Na verdade, uma consciência fechada sobre si própria e o seu pequeno mundo, dificilmente dará assim um salto que, para si, seria quântico: abrir-se e libertar-se das suas próprias limitações. A palavra destino aplica-se aqui, no sentido de natureza a que não pode escapar. Talvez seja assim, o destino de cada um revela-se na forma como vive, nas suas motivações essenciais, como trata os que o rodeiam: o que fica da sua passagem breve por este mundo.

 

É por isso que gosto tanto deste conto de Charles Dickens! E é também por isso que o melhor filme de Natal é, ainda para mim, Do Céu Caiu uma Estrela (It's a Wonderful Life). Se repararem bem, são muito parecidos.

A única diferença é que n' A Canção de Natal Scrooge eleva a consciência e no Do Céu Caiu uma Estrela o homem percebe que a sua dedicação e generosidade valeram a pena.

E isso é verdadeiramente gratificante: o homem que se dedicara à comunidade, comprometendo, pelo bem comum, os seus sonhos pessoais, e deixando para trás o seu direito de melhorar a sua vida e da própria família, descobre que tudo isso valeu a pena.

Só mesmo Frank Capra, o idealista, para nos mostrar que as nossas escolhas são fundamentais, podem perder-nos (porque perder o contacto com a alma é o pior que nos pode acontecer) ou podem salvar-nos.

 

 

Leitura relacionada: Do inspirado blogue Saudades do Futuro, este texto, Portugal Estéril.

  

E ainda: Desta vez do blogue Golpe de Estado, este texto de análise filosófica, política e social, Democracia-cristã, Socialismo e Objectivismo.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 08:24








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